sexta-feira, 30 de novembro de 2007

O QUADRADO REDONDO


Por algum motivo ignorado, as pessoas se desesperavam. Se não era guerra, epidemia, o que explicaria o fato de quase duzentos homens montarem um bloqueio com seus imensos coturnos enfurnados na lama? Sei que não haver saída é uma situação desesperadora e até alarmante – mas o que explicaria tamanho rebuliço, tamanho alvoroço, tal como um guisado quente procurando espaço para expandir o seu caldo grosso?

E o rebuliço era tamanho que ocupava todo o espaço que antes estava reservado para o tempo. Já não havia mais tempo, e quando não há mais tempo a palavra de ordem é: fuja. Fuja antes que a ameaça ignorada te imobilize pelos braços. Antes que ela te detenha de bruços. De modo que, não havendo tempo sequer para me certificar do que estava acontecendo, me juntei a massa anônima que corria desenfreada, uns ainda com roupas de dormir, outros com a cara estupefata. Sabendo que deveria correr e fugir, e ignorando o motivo que agora também me afligia, procurava ruelas desguarnecidas por onde pudesse escapar sem ser detido.

Sei que o que conto não faz sentido, como também não fazia sentido transpor as fronteiras e ir em direção a liberdade que é dada pela imensidão obscura da noite, que sufoca pelo o que ela tem de infinito e que agasalha pelo mesmo e paradoxal motivo. Sei que não fazia (e não faz) sentido algum ir nesta direção – mas deve haver um momento em que já não há mais outra alternativa, outro caminho possível. Deve haver esse momento, onde tomamos o caminho evitado e inevitável. Onde damos o salto. Tal como o girino descobre, pela intumescência que vai se transformando em pata, que é chegada a hora de transpor a superfície cristalina da água e adentrar nesse mundo de oxigênio e carbono.

Nunca soube que o mundo fosse tão estranho. Nunca vi as pessoas tão desesperadas, bem como nunca entendi aquele brilho que se carregava nos olhos, um brilho fosco. Entre o vai-e-vem desenfreado de cotovelos e braços sempre surge um rosto: um rosto conhecido. Um rosto amigo.

Digo o nome desse amigo: Geórgia. É ela quem também se ocupa o tempo todo. É ela quem encontro no meio do tumulto e sequer tem tempo para conversar sobre o ocorrido. Ela diz estar com pressa, que tem de reaver um vestido, e dá meia-volta, decidida a fazer o caminho contrário ao da massa anônima quando a detenho e lhe pergunto:
- O que está acontecendo?
Ao que ela responde:
- Estou correndo. Desculpa, a gente conversa depois. Tenho que pegar um vestido.
- Vestido?? Mas não há tempo para pegar vestidos. E mais: você não deve fazer o caminho de volta.
- Desculpa, estou com pressa. A gente conversa depois. Tenho que voltar pra casa.
- Mas você não pode voltar pra casa!
- Desculpa, por favor, me larga! Estou com pressa!!

E, num movimento súbito, empurrou o ar como se puxasse a barra de um cortina grande e vermelha, querendo acabar com o espetáculo e deixar os espectadores sem resposta e sobreaviso. Num súbito, tinha que detê-la – e para detê-la tinha que dizer algo que fosse tão grave quanto horrível. E disse:

- Mas.. o mundo está acabando!
E ela descerrou a cortina vermelha antes que pudesse me certificar que ela não queria conversar, tampouco dar ouvidos. Deu meia-volta sobre si com sua cortina vermelha e flamejante e saiu correndo tão subitamente e tão desajeitada que a cortina rodopiou em torno do seu corpo, formando a saia que tanto procurava. Se fosse uma pessoa que parasse para refletir, se não fosse surda aos acontecimentos, perceberia a saia que agora adornava seu corpo, a que dedicava tanto zelo. E se também eu não fosse surdo, perceberia a hipótese trágica que havia lançado ao léu, e que dava um sentido repentino a todos esses fatos estranhos e obscuros que atordoavam a minha mente inquieta e impávida. Mas como não sei correr e pensar ao mesmo tempo, só me restava a alternativa de reservar a reflexão para um momento futuro, mesmo sabendo que procedendo dessa maneira corria o risco de tropeçar num troço, de bater a cara contra um muro.

Mas mesmo assim segui meu caminho, deixando a Geórgia pra trás, e indo em direção a qualquer viela da cidade que, por um motivo qualquer, não tivesse guarda ou cancela, sempre imaginando que encontraria esse caminho atrás de uma praça erma e molhada que ficava num bairro de subúrbio.

Porém, tendo explicado tudo o que expliquei até agora, você acha que havia alguma condição de me perguntar onde ficava esse bairro de subúrbio? Havia alguma condição de tomar qualquer caminho estimado, contando já com o imprevisto de não haver ônibus, e de que todos os motoristas estavam também desesperados, e de que contra mim caminhava toda uma massa anônima?

Ou você vai na mesma direção ou você vai contra, e não há outra via. Todos os rios caminham até o oceano: mas há um oceano de pessoas querendo, agora, ocupar uma ilha. Faça os cálculos (se você for uma pessoa que tiver tempo para fazer cálculos) e tenha uma visão dessa geometria, uma noção do que seja o absurdo do quadrado redondo.

Posso estar redondamente enganado, mas não posso ficar sentado, observando esse espetáculo que é o mundo.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

SONHO MEU, volume II

Saiba que sonhei contigo - de novo. Ou melhor: sonhei com o Pi, seu gato. Ou melhor: com algo que eu sabia ser o Pi, muito embora tivesse um pescoço altíssimo e fosse de pelúcia, com expressão facial de desenho animado.

Seja como for, ele, o Pi, ia ser levado ao veterinário e precisava ser dopado. Você e o Carlinhos deram um remédio a ele e eu fiquei observando tudo. De repente, você se estirou sobre o chão e dum modo inexplicável esticou uma das pernas e começou a rir - sabe lá porquê. Achei intrigante. Mais intrigante ainda foi a reação do Pi ao remédio: ele desmaiou prontamente e com sua cabecinha de pelúcia lá das alturas do seu longo pescoço foi parar exatamente sobre o pé da sua perna esticada, que lhe serviu como uma almofada para amortecer o impacto da queda. Daí quem riu fui eu: percebi que você sabia que ele ia desmaiar e, pra amaciar o impacto, esticou estrategicamente as pernas na direção já sabida em que ele ia cair, protegendo-o do impacto.

Ri. Presumi que você já havia lhe aplicado tantas vezes o remédio antes que tal experiência acabou possibilitando até que você adivinhasse como o Pi ia cair e, por força da experiência e do hábito, pode até brincar com a situação, estirando as pernas de um modo que viesse a protegê-lo da queda.

Fiquei pensando (durante o sonho): esta é a força do hábito. De tanto repetirmos uma experiência, acabamos inventando uma inovação para driblar a monotonia que nos impõe sua repetição. De tanto o Pi desmaiar, agora você já podia até adivinhar e calcular em que direção ele ia cair e, como um bailarino que participava de uma coreografia a princípio indecifrável, esticava sua perna de um modo que tal ato viesse a ser completado pela queda de um gato - pescoçudo e de pelúcia.

Foi um balé que vi. Um número musical, onde tudo estava invisivelmente orquestrado e calculado, sem que a princípio eu soubesse.

Agora, acordado e te escrevendo, me pergunto: é assim, a vida??

SONHO MEU, volume I

Saiba que tive um sonho com você neste início de semana. Você virava pra mim e dizia, antes de virar o rosto: "estou indo". Eu me perguntava: "indo? indo pra onde?". E antes que você desse tempo de ter minha pergunta respondida, você partia sentado sobre um foguete, um míssil, que te levaria certamente para as alturas.

Eu também gostaria de ir para as alturas, e por isso invejei a notícia súbita da ida, a coragem com que você havia tomado a decisão: enfim, um amigo meu, pelo menos, ia - enquanto eu, não. Meu Deus, como emulava e invejava a sua ida!!!!

Por favor, quando tomar a decisão de partir de novo, deixe uma bula com todas as descrições.


Também quero ir, sabe lá pra aonde.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

CHURRASCO GÓTICO

Bofe. Fui chamado de bofe. Por quinze minutos minha virilidade ficou exultante: disparei projétil contra o azul varonil, e quis que minha lingüiça fosse amplamente servida pra todos os membros de um churrasco gótico. Churrasco - pasmem vocês - em que estaria contemplando as chamas que se consomem sob o carvão.

Bofe aprecia chamas sob o carvão? Não. Mas eu estaria ali, com os olhos presos às chamas, até que a última faísca se projetasse em direção a minha natureza e iluminasse tudo aquilo que por demais secreto pulsa sob meus músculos retesados, causando alarido e repercussão.

Essa pulsação diz: Eu amo esse homem/ Eu amo esse homem/Não sou o seu bofe/Sou sua paixão.

Bofe se apaixona? Creio que não. E é por isso que creio que eu não sou nada disso, visto que só vadio esquisito entre becos omissos e eternos campos de asfódelos.

Até onde eu saiba, bofe come bife – e eu como brócolis.

domingo, 30 de setembro de 2007

AMOR: ACIDENTE NECESSÁRIO

em A Dupla Chama, por Octavio Paz

O amor único é o resultado de uma escolha, mas esta, por sua vez, não é o resultado de um conjunto de circunstâncias e coincidências? E essas coincidências, são meras casualidades ou têm um sentido e obedecem a uma lógica secreta? Afinal, o encontro precede a escolha e no encontro o fortuito parece determinante. O encontro é constituído por uma série de fatos que surgem na realidade objetiva, sem que aparentemente venham guiados por algum desígnio e sem que nossa vontade participe em seu desenvolvimento. Por exemplo: eu ando sem rumo certo por uma rua qualquer e tropeço em uma pessoa; sua figura me impressiona; quero segui-la, desaparece numa esquina e um mês depois, na casa de um amigo ou na saída de um teatro ou ao entrar num café, a mulher reaparece; sorri, falo com ela, me responde e assim começa uma relação que nos marcará para sempre. Há mil variantes do encontro, mas em todas elas intervém um agente que às vezes chamamos sorte, outras casualidade e outras destino ou predestinação.

Casualidade ou destino, essa série de fatos objetivos regidos por uma causalidade externa, cruza-se com nossa subjetividade, nela se insere e transforma-se numa dimensão do mais íntimo e poderoso em cada um de nós. Breton lembrou Engels e denominou a interseção das duas séries, a exterior e a interior, de acaso objetivo. Ambas são alheias à nossa vontade, ambas nos determinam e sua conjunção cria uma ordem, um tecido de relações, sobre o qual ignoramos tanto a finalidade quanto a razão de ser. Essa conjunção de circunstâncias é acidental ou possui um sentido e uma direção? Seja o que for, somos joguetes de forças alheias, instrumentos de um destino que assume a forma paradoxal e contraditória de um acidente necessário.

O acaso objetivo cria um espaço literalmente imantado: os amantes, como sonâmbulos dotados de uma segunda visão, caminham, cruzam-se, separam-se e voltam a se juntar. Não se procuram: encontram-se. Breton recria com clarividência poética esses estados que todos os amantes conhecem no princípio de sua relação: o saber-se no centro de um tecido de coincidências, sinais e correspondências. O acaso objetivo apresenta-se, em suma, como outra explicação do enigma da atração amorosa, mas deixa intacto o outro mistério, o fundamental: a conjunção entre destino e liberdade. Acidente ou destino, sorte ou predestinação, para que a relação se realize é necessária a cumplicidade da nossa vontade. O amor, qualquer amor, implica um sacrifício; apesar disso, sabemos estar escolhendo, sem pestanejar, esse sacrifício. Este é o mistério da liberdade, como o viram admiravelmente os trágicos gregos, os teólogos cristãos e Shakespeare. Também Dante e Cavalcanti pensavam que o amor era um acidente que, graças a nossa liberdade, se transformava em escolha. Seja como for, Breton percebia como são precárias e ilusórias as idéias com que pretendemos explicar o enigma da relação amorosa. Esse enigma é parte de outro maior, o do homem que, suspenso entre o acidente e a necessidade, transforma sua situação em liberdade.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

TEORIA DO CLOWN, por Fellini

Tenho sob os olhos, entre outras muitas, uma definição do clown feita por meu conterrâneo Alfredo Panzini, no Diccionario Moderno: "CLOWN = palavra ingelsa que quer dizer rústico, rude, torpe, indicando depois quem com artificiosa tropeza faz o público rir. É o nosso palhaço".

Mas também aqui existe a mesma miserável diferença do termo estrangeiro que enobrece a coisa. O palhaço é mais de feira e praça, o clown, de circo e palco. Um bom acrobata é um clown, isto é, quase um artista, e julgará imprópria e ofensiva a expressão palhaço. Mas clown designa também o palhaço. O próprio Carducci, defensor do vernáculo, nas prosas polêmicas de Confessioni e Bataglie, capítulo Ça ira, não desdenha a palavra.

Nesses tempos de nacionalismo, que direi eu? Bem, o clown encarna os traços da criatura fantástica, que exprime o lado irracional do homem, a parte do instinto, o rebelde a contestar a ordem superior que há em cada um de nós.

É uma caricatura do homem como animal e criança, como enganado e como enganador. É um espelho em que o homem se reflete de maneira grotesta, deformada, e vê a sua imagem torpe. É a sombra.

O clown sempre existirá. Pois está fora de cogitação indagar se a sombra morreu, se a sombra morre.

Para que ela morra, o sol tem de estar a pique sobre a cabeça. A sombra desaparece e o homem, inteiramente iluminado, perde seus lados caricaturescos, grotescos, disformes. Diante duma criatura tão realizada, o clown, entendido no aspecto disforme, perderia a razão de existir. O clown, é evidente, não teria sumido, apenas assimilado.Noutras palavras, o irracional, o infantil, o instintivo já não seriam vistos com o olhar deformador que os torna informes.

(...)

Quando digo o clown, penso no augusto. Com efeito, as duas figuras são o clown branco e o augusto. O primeiro é a elegância, a graça, a harmonia, a inteligência, a lucidez, que se propõe de forma moralista, como as situações ideais, únicas, as divindades discutíveis. Eis que em seguida surge o aspecto negativo da questão. Pois dessa forma o clown branco se converte em Mãe, Pai, Professor, Artista, o Belo, em suma, no que se deve fazer.

Então o augusto, que devia sucumbir ao encanto dessas perfeições, se não fossem ostentadas com tanto rigor, se rebela. Vê as lantejoulas cintilantes, mas a vaidade com que são apresentadas as torna inalcançáveis. O augusto, que é a criança que faz sujeira em cima, se revolta ante tanta perfeição, se embebeda, rola no chão e na alma, numa rebeldia perpétua.

Essa é a luta entre o orgulhoso culto da razão, onde o estético é proposto de forma despótica, e o instinto, a liberdade do instinto.

O clown branco e o augusto são a professora e o menino, a mãe e o filho arteiro, e até se podia dizer que o anjo com a espada flamejante e o pecador. São, em suma, duas atitudes psicológicas do homem, o impulso para cima e o impulso para baixo, divididos, separados. (...) A reconciliação dos opostos, a unidade do ser.

A dose de dor que existe na guerra contínua entre o clown branco e o augusto não se deve às músicas nem a nada parecido, mas ao fato de presenciarmos a algo que se liga à nossa própria incapacidade de conciliar estas duas figuras. Com efeito, quando mais procures obrigar o augusto a tocar violino, mais dará soprinhos com o trombone. O clown brnaco ainda pretenderá que o augusto seja elegante. Mas quanto mais autoritária seja essa intenção, mais o outro se mostrará mal e desajeitado.

(...)

Neste ponto, também podia citar a famosa antítese popular chinesa entre ying e yang, o frio e o sol, a fêmea e o macho, todos os possíveis contrastes. Podia-se falar de Hegel e da dialética, acrescentar que os augustos são, mais justamente, uma imagem subproletária do pátio dos milagres, com desnutridos, disformes, marginais, capazes talvez de revoltas, não de revoluções. É provável que o povo sempre os tenha tratado com confiança por causa de sua condição miserável, sentindo-se familiar ao abismo.

(...)

O clown branco é um burguês, que de entrada procura surpreender com sua aparência de rico, poderoso, maravilhoso. O rosto é branco, espectral, franze as altivas sobrancelhas, a boca é assinalada por um só traço, duro, antipático, frio, desigual. Os clowns brancos sempre competiram para ficar com o traje mais luxuoso na luta dos figurinos. (...) O augusto, pelo contrário, faz um tipo único que não muda nem pode mudar de roupa. É o mendigo, o menino, o esfarrapado....

(...)

O clown branco assusta as crianças por representar o dever ou, empregando uma palavra na moda, a repressão. A criança se identifica de saída com o augusto, na medida em que esse se parece com um patinho feio ou um cachorro e é maltratado, e por isso quebra os pratos, se retorce no chão, se atira baldes d'água no rosto. é o que a criança gostaria de fazer e os clowns brancos, os adultos, a mãe, a tia, impedem que faça.

No circo, através do augusto, a criança pode imaginar que faz tudo o que está proibido, se vestir de mulher, armar surpresas, gritar, dizer em voz alta o que pensa.

Aqui ninguém te repreende. Pelo contrário, te aplaudem.

(...)

O mundo, não só minha cidade, está povoado de clowns.

Quando estive em Paris para este filme, imaginei uma sequência, que depois não rodei, em que, andando de táxi, de tanto falar nos clowns, podia-se vê-los na rua. Velhas ridículas com chapéus absurdos, mulheres com sacolas de plástico na cabeça para se proteger da chuva, chapéus e casacos que encolheram, homens de negócios com pastas típicas e um bispo, de aspecto embalsamado, sentado num auto junto ao nosso.

Se me imagino um clown, creio que sou um augusto. Mas também um clown branco ou, talvez, o diretor do circo. O médico de loucos que, por sua vez, enlouqueceu.

(...)

Pasolini é um clown branco do tipo engraçado e sabichão. Antonioni é um augusto desses silenciosos, murchos, tristes. Parise pode ser tudo, um augusto mendigo, sempre meio bêbado, e também um clown branco impertinente, acerado, misógino, dos que esbofeteiam o augusto sem mesmo lhe dar uma explicação.

Picasso? Um augusto triunfal, presunçoso, sem complexos, que sabe fazer tudo e no fim é quem vence o clown branco. Einstein, um augsto sonhador, encantado, que não fala, mas no último instante tira, cândido, do bolso a solução do enigma proposto pelo atilado clown branco. Visconti, um clown branco de grande autoridade, cujo faustoso traje impressiona. Hitler, um clown branco. Mussolini, um augusto. Pacelli, um clown branco. Roncalli, um augusto. Freud, um clown branco. Jung, um augusto.

O jogo é tão certo que, se te vês por acaso ante um clown branco, tendes a ser um augusto, é vice-versa.

O chefe de produção da minha fita era um clown branco. Assim, os outros nos convertíamos em augustos. Apenas a aparição de um clown branco mais ameaçador, o fascista, nos transformava também em clowns brancos, desde o momento em que lhe respondíamos, disciplinados, com a saudação romana.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

SOB O SOL DE TOSCANA

Nem repare a cara de cansaço. Devo estar mesmo cansado - mas de um cansaço ancestral, sem nome, irreconhecível, que abate certas pessoas. Abate pelo menos a mim esse cansaço, cujo nome nem reconheço e que boa parte das vezes nem percebo. Mas seguimos adiante assim mesmo - cançados.

Trabalhamos, nos divertimos e, às vezes, pra descançar o cérebro, assistimos tv. Acreditamos que assim se pode descansar. No entanto, o que é surpreendente, é que as vezes a tv passa um daqueles filmes, como dizer?, românticos, que renovam nossa esperança na vida. Apesar de ter acabado de ver SOB O SOL DE TOSCANA na Globo, apesar da personagem mais caricatural do filme se parecer com a Lazulli e apesar da protagonista lutar contra a tristeza tal como minha irmã, sou obrigado a reconhecer que - as vezes - as coisas dão certo e caminham bem, contrariando toda a expectativa que a gente vinha depositando sobre a vida.


Eu, que só esperava que as coisas jamais dessem certo, eu que jamais esperava que pudesse viver um amor sincero e legítimo, me pego agora contrariado por um filme todo clichê - e me vejo. Me vejo como uma flecha cortando a escuridão do universo num rumo que jamais havia julgado certeiro - e me deparo com você. Vejo você. E vejo você me vendo.


Isto me liberta. Sabe lá do quê. Talvez desse cansaço ancestral, dessa tristeza e desse pessimismo que vamos nutrindo ao longo da vida e que o destino - as vezes - contraria e transforma. Você me transforma. Você me renova e, como um flecha, passo a achar que vale a pena acertar o coração da vida.


Quero acertar o coração da vida.


Quero tentar, sabe lá o que, com você. Tentar isso cujo nome também ignoro, mas que deixa meu coração pulsando e minha esperança florida.


Acho que te amo.


Acho, não: com certeza eu te amo.


Mas talvez não compreenda o significado profundo da experiência amorosa que parece continuar oculto, indecifrável, submerso, por debaixo de nossos encontros, de nossa troca de olhares, de nosso convívio.


Continuo te olhando, e te amando.


Mas um dia espero entender tudo isso.

domingo, 10 de junho de 2007

ARTE DE AMAR por Manuel Bandeira

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.



terça-feira, 8 de maio de 2007

VÊNUS E MARTE de Botticelli

E eu que por muito tempo cri que o motor decisivo da vida fosse formado por glândulas. Eu que engolia tudo: do caroço às cascas da laranja. Que era arrastado por uma fome canina. Pelo sangue grosso da jugular.
Foi em tempo que me distraí, dei um passo em falso e me perdi neste pomar. Foi quando vi: Vênus, a deusa do amor, deitada com Marte, o deus da guerra, sobre a grama.

Ela sequer trazia marcas de violência sobre seus vestidos.
Ele arqueava o peito sob a força de enorme gozo.

Mas de onde vinha esse lampejo de fogo, visto que não havia entre eles um único sinal de amor carnal, de coito? Vinha do fato dele ter apenas se deparado com sua presença, de ter confirmado que o amor existia – o que já era suficiente para que qualquer um viesse a depor suas armas e tirar a própria armadura. Quando você me agasalhou com sua ternura, fiquei meio assim: ninho em alarido, e com vacilação mui particular permiti que você se aproximasse do meu pomar, onde nem mais sabia que se cultivavam jambos e rosas.

Hoje, um vento estranho balançou meus cabelos.

E assim soube que você nunca mais foi embora.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

MAPA DE ESPERA (novo)

Estou nos arredores de onde ele mora.

Penso em bater palmas, chamá-lo. Mas não o faço. É inútil, não adianta. Ele não atenderá. Ele não atende, nunca atende.Não haveria porque atender agora.

Procuro uma pedra, uma árvore, uma zona eqüidistante onde possa me aconchegar para observá-lo. Já estou horas neste lugar, dias – séculos. E não o vejo. Mas continuo esperando-o. Não desisto.

Me assombro com a falta de desistência.

É quando confirmo o quanto é imperativo que dele eu saiba.

Me reacomodo. Monto uma casa – só agora reconheço esta casa que monto como um posto de observação, de escuta. Monto uma casa. Lavo a louça. Crio galinhas, até. Aos poucos, vai se fazendo esta situação anômala: espero. Espero por ele, que eu não sei quem é. Observo-o. Observo-o pela ausência que deixa, pelas suas furtivas idas e vindas. Sobretudo, observo com estupor minha própria expectativa.

Estabelece-se uma circunvizinhança alienígena.
Tornamo-nos estranhos e familiares.
Nem bons, nem maus – vizinhos apenas.

MAPA DE ESPERA (velho)

Sei que foi como numa manhã nevoenta que percebi: alguma coisa faltava. Como se alguém não estivesse, co­mo deveria ser de costume, à porta, esperando — mas tão somente como uma pessoa que não tem pelo quê esperar espera.

Foi numa manhã nevoenta que percebi: não havia ninguém na minha varanda. E talvez não hou­vesse ninguém também no quarto, no sótão - vasculhei áreas estranhas atrás dessa pessoa, desesperado, como se ter perdido o que jamais havia confirmado que existira fosse a coisa mais imperdoável deste mundo.

Às vezes, em raros momentos, em raríssimos momen­tos, ela me aparece. Na varanda. Estou a seu lado. Neste momento, reparando nela a meu lado, descubro: que eu nunca poderia prendê-la. Nem dentro de casa, nem den­tro de mim. E que me resta um consolo sobre-humano de ficar feliz só pelo simples fato de que eu a vira, e de que ela poderia estar comigo sempre que quisesse — mas somen­te quando ela quisesse. Que não depende de mim, que terei que aprender a suportar cada vez mais esse desamparo,que não adianta tomar café, que não adianta jogar baralho, que não adianta matar saúvas!

Se me perguntassem o porquê da minha tristeza, seria assim que justificaria: esta é a cara que tenho, desde que ela ou aquilo partiu como se nunca mais fosse voltar. E que, desde então, espero. Espero todo dia que aquilo me aconteça, mesmo quando estou la­vando as vidraças, mesmo quando estou descansando e raios de luz atravessam as brechas das venezianas.

Espero ansiosamente: a manhã nevoenta.

Depois de­sespero: cai grande quantidade de chuva.

Só então chego à janela e contemplo o céu, da mesma forma como o vulto esperado chega tranqüilo à varanda.

Há luz.

E subitamente sei, percebo que sei, sei que ela vai voltar, que acredito nela como se acredita em du­endes - se acredita em duendes, em fadas e bruxas.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

INDEPENDÊNCIA E MORTE

Faço carinho no leão como quem põe cordas no recinto
e amarro o destino à luz, o desespero ao vinho tinto
sinto que sou suspenso por uma noite sem botes.

Terrível é haver tráfego no coração.

Insuspeito é o ato de desembrulhar pacotes.

Faço carinho no leão. Todo um universo se ouriça
e acordo imenso com pata e juba,
aquela dor insana de viver a vida ou de salvá-la.

Não há acidente que recubra Teu rosto:
ou procuro a razão dos dias
ou respiro profundo nas águas.