domingo, 9 de junho de 2013

EU SOU UMA NARRATIVA





Eu sou uma narrativa:

os fatos se sucedem como se sucedem as palavras, as sílabas

compondo o que só compõe os mestres da literatura universal.

As frases tem por ambição fazer sentido:
 
a vida tal qual.


 

quinta-feira, 7 de julho de 2011


Sou pirata: desde há muito o mar minou a âncora que a terra me atava. Sou pirata: cresci sem raízes e aos poucos fui desgrenhando os cabelos até que tudo aturdisse. Até que o horizonte se tornasse o cenário por onde trafego ao contrário e peregrino sem exílio, me arriscando contra qualquer direção. Por isso não tenho linhas nas mãos e me sento na orla da praia, aturdido.

Os coqueiros balançam em homenagem ao sol de inverno.

Não é o fim: é início.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

EFEMÉRIDES 1



O sol está lindo, o meu bálsamo viceja de tanta clorofila e com o advento do eclipse o céu adquiriu aquela espessura que lhe dá a realidade devida:profundidade e espanto. No entanto, tenho sido perseguido pela tia Angústia. Eu, que sempre fora sobrinho do Desespero, agora me vejo invadido por este sentimento novo, a angústia.

Será o amor? pensei. Afinal, sempre há durante o ato amoroso o reconhecimento de um certo egoísmo natural, de uma certa fronteira cuja travessia, se não é impossível, é movediça. Será a carreira? Afinal, os resultados são sempre tão medíocres que acabo me perguntando sobre o esforço despendido, sobre os resultados deste esforço que se esboroam como cimento e pó - que queimam.

Não sei, não sei. Só sei que resolvi decretar oficialmente um luto, aquele balanceamento de contas que, afinal, um dia todos deveremos fazer - mas que sempre adiamos. E, se não for este balanceamento de contas o que estou vivendo agora, que seja pelo menos uma espécie de introspecção, de mergulho necessário e dolorido que, afinal e ao cabo, te joga renovado sobre a vida, essa imensa praia. Que seja pelo menos isto, então.

Tenho descoberto algumas coisas nesta ilha tropical em que estou vivendo e em que sou o meu amigo mais íntimo.Primeiramente, o mais fundamental: de que não tenho talento nenhum para viver, para fruir do tempo - como diria um bom filósofo. Sempre fui tão ocupado com o ser e em tentar ser que me afixei neste verbo como uma serpente, me esquecendo absolutamente como é que se faz para estar. Sim, estar.

Você já esteve? Eu, por exemplo, nunca estive, ou melhor, raramente estive - e quando percebi que estava, deixei imediatamente de estar. Estar é terrível. Exige constantemente que você seja só sensação, quase burro. Que se seja epitelial, pensamento turvo. Mas eu me acostumei com meu crânio.

E é daí que descobri outra coisa fundamental, a segunda coisa: que pensar, ler e escrever é uma maneira de driblar a efemeridade do que vive sob a égide do tempo. Ler eterniza. Viver temporiza - e eu não sei viver. Desfrutar da passagem do tempo. Sou absolutamente incapaz disso, e procuro alguma  forma de eternidade nesta paragem do tempo que, em suma, é a literatura, a filosofia e a astrologia. Crê nisso, que a literatura, a filosofia e a astrologia constituem uma razão para o espírito, uma razão que dá um sentido maior à efemeridade das coisas? Não crê nisto? Não?

Eu creio.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

EXERCÍCIOS PARA SAIR DO TÚMULO

2


Porque reza com sangramento
se há consagração?
Porque condoer, remoer, revirar o pote
se há pendão e condão
a banhar seu corpo inteiro?
Vamos, ora, levante-se!
É hora de oração
não exercício de coveiro.


quinta-feira, 14 de outubro de 2010

EXERCÍCIOS PARA SAIR DO TÚMULO

1
Adicionar imagem

Dê espaço para mais um pouco.

Abra uma brecha e quebre a janela.

Olhe pra fora com olhar espartano:


a faísca é fusível e gazela.


E por pouco,

tu não pulas o muro

e arrebentas o lacre e a tramela

mas ocupados estás com carunchos e casulos

a remover baleias, a exercitar as guelras.


quarta-feira, 28 de julho de 2010

RECADO PARA UM AMIGO SOLITÁRIO

de Paulinho Pedra Azul


Quando chegar na tua casa
E encontrar solidão
Lembre de mim
Que também vivo só



Quando encontrares a paz
Mande uma carta pra mim
Quero saber
Como fazer
Pra ser feliz tanto assim



Uma canção deve haver
Para fazer entender
Que nada tenho a dizer
Quando o jeito é viver


domingo, 16 de maio de 2010

DIREITO NATURAL E (minha) HISTÓRIA


"As diferentes coisas humanas que são por natureza nobres ou admiráveis são essencialmente as partes da nobreza humana na sua plenitude ou pelo menos estão relacionadas com ela; todas indicam a alma harmoniosa, que é, sem rival, o fenômeno humano mais admirável. (...) A perspectiva materialista impede de ver no que é superior mais do que o efeito do que é inferior, de considerar a possibilidade de que há fenômenos que pura e simplesmente não são redutíveis as suas condições, que há fenômenos que por si mesmos formam uma classe a parte. Tais hipóteses não são concebidas no espírito de uma ciência empírica do homem".


Leo Strauss in Direito Natural e História

sábado, 24 de outubro de 2009

BORBOLETA


Aos poucos, fui percebendo que era estranho a todos e tudo
e essa estranheza, aos poucos, foi se tecendo em casulo.
Noite profunda e densa acobertando a existência,
mar submerso onde não trafego ileso.
Coisas que procuram outras com certa urgência
e deixam a vida tórrida e as mãos crispadas.

Fumo Malboro. Espero socorro - não vês?
Fico com as veias saltadas.
Fico com a alma partindo com longos uivos pungentes,
ausculto o movimento do sangue:
ele jorra caloroso e grosso.

é quando confirmo minha condição de náufrago.
é quando em mim dá um troço, e fico louco.

Tento encontrar nesse mar amorfo
algum destroço, coisa que bóia, salvação.
Já há um farol sobre o planeta
ele rasga com sua luz a escuridão
e parte meu lacre com dor de quem pare
milhares de coisas voadoras & vermelhas.

Hoje larvo duro sobre folha verde e tenra.

Amanhã alço vôo - e borboleta.

domingo, 26 de abril de 2009

RASTROS DO SAGRADO, de Umberto Galimberti

"Sagrado" é palavra indo-européia que significa "sepa­rado". A sacralidade, portanto, não é uma condição espiri­tual ou moral, mas uma qualidade inerente ao que tem rela­ção e contato com potências que o homem, não podendo dominar, percebe como superiores a si mesmo, e como tais atribuíveis a uma dimensão, em seguida denominada "divi­na", considerada "separada" e "outra" com relação ao mun­do humano. O homem tende a manter-se distante do sagra­do, como sempre acontece diante do que se teme, e ao mes­mo tempo é por ele atraído, como se pode ser com relação à origem de que um dia nos emancipamos.

O indiferenciado de que o sagrado se alimenta é, em vez, o cenário pré humano do qual o homem se emancipou com um gesto violento. Falamos da violência subjacente a toda decisão, porque de-cidir significa cortar (de-caedere), e, portanto, estabelecer de uma vez por todas o sentido das coi­sas, eliminando com um golpe todos os significados contíguos e todas as oscilações possíveis de que se nutrem as mito­logias, os símbolos, as fantasias, as alucinações que têm relação com aquele cenário pré-humano, que é o cenário do indiferenciado.

Regra da razão é com efeito o princípio de identidade e não-contradição, que afirma que "isto é isto e não outra coisa". O princípio que a rege é a disjunção (em grego, diaballein), que veta que uma coisa seja "isto e também outra coisa", como ao contrário prevê a linguagem simbólica (em grego, syn-ballein), da qual se alimentam as narrativas míticas, mágicas, poéticas e religiosas. Pela razão, de fato, é impossível dizer do mesmo ser que é Deus e homem, ou Deus e animal, que é benéfico e maléfi­co, que está abandonado, exposto, ameaçado e, ao mesmo tempo, que é invencível e divino; que é macho e ao mesmo tempo fêmea, como a linguagem simbólica não cessa de repetir.

O Deus que habita a região do sagrado não sabe manter nem mesmo uma identidade própria, e por isso se entrega às metamorfoses mais variadas sem fidelidade e sem memória. A identidade, com efeito, é a outra face da diferença, é o que se obtém porque não se con-funde com todas as coisas; ao contrário, Deus é aquele panorama indistinto, aquela reserva de toda diferença, aquela indecifrabilidade que os ho­mens, depois que dela se separaram, perceberam ser seu hori­zonte de procedência e a mantiveram distante, fora da sua co­munidade, no mundo dos deuses, que por isso antecedem os homens.

O mundo que eles habitam é o mundo do símbolo na acepção grega de syn-ballein, "pôr junto", onde não há dis­tinção, onde a incapacidade de reconhecer a diferença une-se à tendência de aboli-la com um gesto violento. A noite do sagrado é uma noite inimaginável, que não é sequer nem o contrário do dia, porque é noite e dia, luz e trevas. É noite sem face, à qual se poderia aplicar a expressão de Edmond Jabes: “ Todos os rostos são o Seu, e essa é a razão por que Ele não tem rosto”.

Se o sagrado se afasta muito, o risco é o esquecimento das regras que os homens aprenderam para se proteger, e então o sagrado irrompe e a sua violência produz a dissolução da comunidade ou, na perspectiva psicológica, da personalidade. Desse modo, a existência humana fica a cada momento governada pelo sagrado, do qual não deve aproximar-se muito para não ser dissolvida, mas de que não deve tampouco afastar-se demais para não perder os efeitos da sua presença fecundante.

Como mediador entre o sagrado e o profano, entre ho­mens e deuses, está o sacrifício.O princípio do sacrifício é a destruição, mas o que o sacrifício destrói não são tanto as primícias da colheita ou as cabeças de gado, mas a relação que habitualmente o agricultor tem com a sua colheita e o fazendeiro com o seu gado. Destruindo a relação, o sacrifício subverte uma ordem, põe fim a laços habituais que costumeiramente temos com as coisas, não para estabelecer outros, mas para criar aquele vazio que as cinzas do sacrifício bem representam como distância que nos separa das relações aparentemente inevitáveis que temos com a realidade.

O mundo aberto pelo sacrifício opõe-se ao mundo real como o excesso festivo à moderação do dia útil, como a embriaguez à lucidez. Não há efetivamente medida senão nas regras da razão que garantem a identidade do objeto consigo mesmo, não há lucidez senão na consciência distinta dos objetos. Mas o sacrifício, reduzindo a migalhas o objeto sacrifi­cado, dissolvendo-o nas cinzas, escancara aquela noite indistinta e infinitamente suspeita que, no silêncio da razão, abre ao indiferenciado, ao indeterminado.

É no sacrifício que são sacrificadas a realidade e as relações de realidade, laboriosamente construídas pela razão, porque o sacrifício é um matar que expõe sobre o altar sacrificial todos os sentidos e todos os significados que o sagrado indistintamente abriga, mas que a razão se obriga a remover para poder ordenar a realidade segundo critérios sem os quais seria impossível viver. Sacrificando esses critérios, o sacrifício aceita passar de uma ordem a outra, onde o Outro não é o contrário da ordem sacrificada, mas outra coisa totalmente diferente.

É preciso ter presente aqui que a remoção do sagrado implica a absolutização do cosmo da razão, razão essa que, quando se torna segura de si, não mais entreabre a porta atrás da qual se agita a violência do indiferenciado e o caos. Os ritos sacrificiais das culturas primitivas, dos quais a missa cristã é um vestígio esmaecido, tinham o objetivo de entreabrir essa porta. Mas fazendo acordos com a razão, com a boa educação, com a cultura, com a moral civil, a religião se tornou evento diur­no, e por isso fala de moral sexual, de contracepção, aborto, divórcio, de escola pública e privada. E assim, ocupando-se com reflexões que toda sociedade civil pode ela mesma tranqüilamente fazer por si, deixa a gestão da noite indiferenciada do sagrado à solidão de cada um dos que procuram remédios na farmácia, ou à loucura dos grupos que produzem promessas vazias, com freqüencia trágicas.

Não há mensurabilidade entre o saber humano e o saber divino, e portanto não se pode comprimir o juízo de Deus nas regras com que os homens organizaram a sua razão e elaboraram as suas morais. Deus está além do verdadeiro e falso, e igualmente do bem e do mal. Aliás, necessidade qual seria a de Deus se o seu juízo fosse legível nas leis da moral que cada comunidade pode elaborar por si? Um Deus retribuidor que adota a regra da razão, um Deus contabilista, um Deus jurídico, é um Deus incapaz de graça. É preciso lembrar isso a todos os que interpretam a Salvação como um direito que pode ser adquirido com boas ações sobre a terra, a todos os que se julgam a salvo e se es­quecem de que, no regime do sagrado, à sombra das bênçãos de Deus, sobranceia jamais separada, a possibilidade da maldição.

Nada poderá salvar os homens que, atendo-se ao presumido conhecimento do bem e do mal, pensavam que honravam a Deus. E isso porque, por um lado, a ambivalência de Deus está além das equivalências das morais humanas, e por outro porque a transcendência e inacessibilidade do seu juízo impedem que uma religião, em seu nome, possa apropriar-se do princípio do bem e do mal, que é enfim o segredo que Deus esconde e que em vão a ser­pente promete revelar.

É por isso que a relação com Deus exige o sacrifício do Eu. A visão de cima, a epopteia, tem a sua contrapartida na cegueira pe­las coisas da terra. Essa palavra significa literalmente “olhar de cima” e não atrás para reconstruir o proóprio passado ou para procurar a própria identidade. Desse destino não escapa nem mesmo o filósofo, nem mesmo o adivinho – e o poeta grego. Mas que visão oferecem as Musas ao poeta em troca da cegueira? Homero, que a tradição tem por cego, invoca a ajuda das Musas para saber o que deve dizer, e não como deve dizê-lo; a invocação é para o conteúdo, não para a forma. O poeta portanto é um vidente. O latim vates conserva traços dessa unidade originária. Hesíodo atribui às Musas e reivindica a si o mesmo conhecimento das "coisas presentes, futuras e passa­das" que Homero atribui ao adivinho Calcante. Cegos à luz, vêem o invisível. O Deus que os inspira lhes revela as par­tes do tempo inacessíveis aos mortais: o que aconteceu uma vez e o que ainda não é. E enquanto o adivinho deve respon­der às preocupações relacionadas ao futuro, o poeta se orien­ta para o tempo antigo que não é o passado, mas o tempo originário, a realidade primordial da qual saiu o cosmo. Nessa geografia do sobrenatural, o passado está além com relação ao mundo dos vivos, é o mundo dos deuses a que retorna tudo o que deixou a luz do Sol. Desse mundo a alma do poeta pode aproximar-se, entrar e voltar livremente por dádiva da Mnemosyne, a Memória, de quem as Musas são filhas.

Entre a ordem dos trabalhos e a ordem dos deuses, que o poeta inspirado viu com a sua epopteia, há estreita relação. Aliás, para que o rito religioso tenha eficácia é necessário que quem dele participa compartilhe o mesmo mito que, pelas analogias e relações, está em condições de ligar a ordem originária e imu­tável que está no céu com a ordem mutável da terra. Quanto mais o mito é convincente nas identidades e conexões simbó­licas que produz, tanto mais o comportamento é eficaz. O poeta tem a tarefa de fixar na ordem divina, que é estável e não corroída pelo tempo, a regra que os homens devem seguir.

Na verdade, a divindade não é a ordem, mas a referência além do humano em que a huma­nidade sempre fixou as regras que se estabeleceu para evitar que se tornassem arbitrárias. À divindade só será possível renunciar quando os homens aceitarem ser os autores das regras, mas para essa passagem será necessária uma grande maturidade antropológica em condições de suportar a ausência de uma ordem natural ou divina, e portanto de habitar sem angústia a ordem da convenção. A isso proverá a filosofia com a conversão da alma de sede da memória a sede da produção de idéias e construtos mentais. Aqui também começa o desencanto do mundo e o afastamento do sagrado.

Talvez tenha sido por isso que Holderlin tenha dito: “Dia e noite, um fogo divino nos impele a abrir o caminho. Vamos! Olhemos no Aberto, procuremos alguma coisa apropriada, embora ainda distante." Esses versos fascinaram Martin Heidegger, para quem o Aberto é a condição para que as coisas possam aparecer pelo que são e não pelo que valem. Mas para aproximar-se do Aberto é preciso um pensamento capaz de sair do âmbito do en-cerrado na previsão do pensamento que calcula, e de arriscar no Aberto des-cerrado do pensamento que pensa. Ao pensamento que pensa corresponde na verdade aquele dizer que não é mero calcular e numerar mas, dizendo, pôe a coisa em relações que, ultrapassando o recinto delimitado do cálculo, evocam os mortais e os divinos, o céu e a terra.

Desse dizer é capaz Holderlin, que não canta por esta ou aquela coisa, mas por nenhuma coisa. Essa coisa alguma não é o nada, mas aquilo que não se diz do pensamento que calcula. Hõlderlin, e com ele os poetas, escreve Heidegger,"dizem o calado", dizem aquela total ausência de proteção que o homem tenta em vão mascarar com o cálculo e com o projeto, com a previsão e com a antecipação, quando não ousa sair para o Aberto e arriscar sentidos imprevistos.

Por isso os poetas são os que mais se arriscam, "porque arriscam o próprio ser e, portanto, arriscam-se na região de. ser",enquanto os outros se detêm no comércio do ente. Os primeiros arriscam a linguagem, por isso "são os que dizem", os segundos usam a linguagem e se detêm nos modos de di­zer. A estes a linguagem não diz, a linguagem serve e por isso retira-se do caminho ao longo do qual o pensador que fala do ser encontra o poeta que fala do sagrado. Nada se sabe do colóquio que mantêm, apenas é permitido ouvir que "O sagrado une ao Divino. O Divino aproxima de Deus".

O lugar que o sagrado deixou vazio é hoje ocupado por palavras religiosas que, fechadas no cálculo dos valores, limitam-se a circunscrever o recinto do agir. Assim a essência do homem empobrece quando, à sombra de religiões cuja única preocupação parece ser a dimensão ética, procura dar sentido à dor, educar para o amor, preparar-se para a morte. As religiões, que parecem preocupadas apenas com a ética, atribuindo a Deus um nome, calçaram o caminho do homem com preceitos e mandamentos, bons apenas para as disputas que nunca conheceram a discrição do silêncio, a prevaricação do dizer. É um dizer que, fixando as fronteiras do bem e do mal, circunscreve um mundo fechado que afasta de si o Aberto e oculta o Sagrado que se anuncia lá onde a proteção inexiste, onde o risco ameaça, onde nada está protegido nem antecipadamente posto a salvo, onde a terra que se habita já é de imediato terra estranha.

O Aberto, pois, é a possibilidade infinita de sentido que as coisas não cessam de difundir e a razão de conter. Sentido, este, que a poesia grega conhecia. Poesia que, diante do cosmo da razão, o único que os homens podem habitar, sabe de que fundo ele se libertou e por isso não fecha o abismo do caos, não ignora a terrível abertura para a fonte opaca e obscura que questiona o fundamento mesmo da racionalidade, porque sabe que é desse mundo que procedem as palavras que depois a razão ordena de maneira não oracular e não enigmática.

Por isso que aproximar-se dos mitos significa evitar antecipadamente a armadilha do racionalismo que, com suas palavras ordenadas e justificadas, suprimem aquela vigília da origem das palavras a que a narrativa mítica pretende retornar, desvelando não uma cena muda, mas aquela cena em que todo sentido ainda não está totalmente extinto na palavra. A palavra expressa, com efeito, não é senão cadáver da palavra mítica, e é necessário encontrar, com a linguagem da própria vida, a Palavra antes de todas as palavras.

segunda-feira, 23 de março de 2009

DESARVORANDO

A passagem
do silêncio à palavra
é estrada de laranjas e musgo

sob o impacto, sob o susto
de um incesto
entre os insetos e o fruto.

Andam meus poros a despedir-se do luto
Anda meu corpo a vibrar em uníssono
a esgueirar-se infinito
por esses caules
de uma imensa mangueira.

Incandescente é a paz que me molha a fronte.
Entre deus e o homem não há fronteiras
.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

PARA QUEM SE ENCONTRA EM RECONSTRUÇÃO

"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.

É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma idéia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver.


Ontem, no entanto, perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei entregar-me a desorientação. Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo?


No entanto, na infância as descobertas terão sido como num laboratório onde se acha o que se achar? Foi como adulto então que eu tive medo e criei a terceira perna? Mas como adulto terei a coragem infantil de me perder? perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando. As duas pernas que andam, sem mais a terceira que prende. E eu quero ser presa. Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas enquanto eu estava presa, estava contente? ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneira? ou havia, e havia, aquela coisa latejando, a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa. É? também, também".


Clarice Lispector in A PAIXÃO SEGUNDO G.H.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

IDENTIDADE EM COMUM

Não há muita diferença entre um cômico e um trágico: ambos se emocionam e vertem lágrimas. O resto é só jogo de perspectiva.

Te amo também por isso.