terça-feira, 8 de maio de 2007

VÊNUS E MARTE de Botticelli

E eu que por muito tempo cri que o motor decisivo da vida fosse formado por glândulas. Eu que engolia tudo: do caroço às cascas da laranja. Que era arrastado por uma fome canina. Pelo sangue grosso da jugular.
Foi em tempo que me distraí, dei um passo em falso e me perdi neste pomar. Foi quando vi: Vênus, a deusa do amor, deitada com Marte, o deus da guerra, sobre a grama.

Ela sequer trazia marcas de violência sobre seus vestidos.
Ele arqueava o peito sob a força de enorme gozo.

Mas de onde vinha esse lampejo de fogo, visto que não havia entre eles um único sinal de amor carnal, de coito? Vinha do fato dele ter apenas se deparado com sua presença, de ter confirmado que o amor existia – o que já era suficiente para que qualquer um viesse a depor suas armas e tirar a própria armadura. Quando você me agasalhou com sua ternura, fiquei meio assim: ninho em alarido, e com vacilação mui particular permiti que você se aproximasse do meu pomar, onde nem mais sabia que se cultivavam jambos e rosas.

Hoje, um vento estranho balançou meus cabelos.

E assim soube que você nunca mais foi embora.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

MAPA DE ESPERA (novo)

Estou nos arredores de onde ele mora.

Penso em bater palmas, chamá-lo. Mas não o faço. É inútil, não adianta. Ele não atenderá. Ele não atende, nunca atende.Não haveria porque atender agora.

Procuro uma pedra, uma árvore, uma zona eqüidistante onde possa me aconchegar para observá-lo. Já estou horas neste lugar, dias – séculos. E não o vejo. Mas continuo esperando-o. Não desisto.

Me assombro com a falta de desistência.

É quando confirmo o quanto é imperativo que dele eu saiba.

Me reacomodo. Monto uma casa – só agora reconheço esta casa que monto como um posto de observação, de escuta. Monto uma casa. Lavo a louça. Crio galinhas, até. Aos poucos, vai se fazendo esta situação anômala: espero. Espero por ele, que eu não sei quem é. Observo-o. Observo-o pela ausência que deixa, pelas suas furtivas idas e vindas. Sobretudo, observo com estupor minha própria expectativa.

Estabelece-se uma circunvizinhança alienígena.
Tornamo-nos estranhos e familiares.
Nem bons, nem maus – vizinhos apenas.

MAPA DE ESPERA (velho)

Sei que foi como numa manhã nevoenta que percebi: alguma coisa faltava. Como se alguém não estivesse, co­mo deveria ser de costume, à porta, esperando — mas tão somente como uma pessoa que não tem pelo quê esperar espera.

Foi numa manhã nevoenta que percebi: não havia ninguém na minha varanda. E talvez não hou­vesse ninguém também no quarto, no sótão - vasculhei áreas estranhas atrás dessa pessoa, desesperado, como se ter perdido o que jamais havia confirmado que existira fosse a coisa mais imperdoável deste mundo.

Às vezes, em raros momentos, em raríssimos momen­tos, ela me aparece. Na varanda. Estou a seu lado. Neste momento, reparando nela a meu lado, descubro: que eu nunca poderia prendê-la. Nem dentro de casa, nem den­tro de mim. E que me resta um consolo sobre-humano de ficar feliz só pelo simples fato de que eu a vira, e de que ela poderia estar comigo sempre que quisesse — mas somen­te quando ela quisesse. Que não depende de mim, que terei que aprender a suportar cada vez mais esse desamparo,que não adianta tomar café, que não adianta jogar baralho, que não adianta matar saúvas!

Se me perguntassem o porquê da minha tristeza, seria assim que justificaria: esta é a cara que tenho, desde que ela ou aquilo partiu como se nunca mais fosse voltar. E que, desde então, espero. Espero todo dia que aquilo me aconteça, mesmo quando estou la­vando as vidraças, mesmo quando estou descansando e raios de luz atravessam as brechas das venezianas.

Espero ansiosamente: a manhã nevoenta.

Depois de­sespero: cai grande quantidade de chuva.

Só então chego à janela e contemplo o céu, da mesma forma como o vulto esperado chega tranqüilo à varanda.

Há luz.

E subitamente sei, percebo que sei, sei que ela vai voltar, que acredito nela como se acredita em du­endes - se acredita em duendes, em fadas e bruxas.