sexta-feira, 30 de novembro de 2007

O QUADRADO REDONDO


Por algum motivo ignorado, as pessoas se desesperavam. Se não era guerra, epidemia, o que explicaria o fato de quase duzentos homens montarem um bloqueio com seus imensos coturnos enfurnados na lama? Sei que não haver saída é uma situação desesperadora e até alarmante – mas o que explicaria tamanho rebuliço, tamanho alvoroço, tal como um guisado quente procurando espaço para expandir o seu caldo grosso?

E o rebuliço era tamanho que ocupava todo o espaço que antes estava reservado para o tempo. Já não havia mais tempo, e quando não há mais tempo a palavra de ordem é: fuja. Fuja antes que a ameaça ignorada te imobilize pelos braços. Antes que ela te detenha de bruços. De modo que, não havendo tempo sequer para me certificar do que estava acontecendo, me juntei a massa anônima que corria desenfreada, uns ainda com roupas de dormir, outros com a cara estupefata. Sabendo que deveria correr e fugir, e ignorando o motivo que agora também me afligia, procurava ruelas desguarnecidas por onde pudesse escapar sem ser detido.

Sei que o que conto não faz sentido, como também não fazia sentido transpor as fronteiras e ir em direção a liberdade que é dada pela imensidão obscura da noite, que sufoca pelo o que ela tem de infinito e que agasalha pelo mesmo e paradoxal motivo. Sei que não fazia (e não faz) sentido algum ir nesta direção – mas deve haver um momento em que já não há mais outra alternativa, outro caminho possível. Deve haver esse momento, onde tomamos o caminho evitado e inevitável. Onde damos o salto. Tal como o girino descobre, pela intumescência que vai se transformando em pata, que é chegada a hora de transpor a superfície cristalina da água e adentrar nesse mundo de oxigênio e carbono.

Nunca soube que o mundo fosse tão estranho. Nunca vi as pessoas tão desesperadas, bem como nunca entendi aquele brilho que se carregava nos olhos, um brilho fosco. Entre o vai-e-vem desenfreado de cotovelos e braços sempre surge um rosto: um rosto conhecido. Um rosto amigo.

Digo o nome desse amigo: Geórgia. É ela quem também se ocupa o tempo todo. É ela quem encontro no meio do tumulto e sequer tem tempo para conversar sobre o ocorrido. Ela diz estar com pressa, que tem de reaver um vestido, e dá meia-volta, decidida a fazer o caminho contrário ao da massa anônima quando a detenho e lhe pergunto:
- O que está acontecendo?
Ao que ela responde:
- Estou correndo. Desculpa, a gente conversa depois. Tenho que pegar um vestido.
- Vestido?? Mas não há tempo para pegar vestidos. E mais: você não deve fazer o caminho de volta.
- Desculpa, estou com pressa. A gente conversa depois. Tenho que voltar pra casa.
- Mas você não pode voltar pra casa!
- Desculpa, por favor, me larga! Estou com pressa!!

E, num movimento súbito, empurrou o ar como se puxasse a barra de um cortina grande e vermelha, querendo acabar com o espetáculo e deixar os espectadores sem resposta e sobreaviso. Num súbito, tinha que detê-la – e para detê-la tinha que dizer algo que fosse tão grave quanto horrível. E disse:

- Mas.. o mundo está acabando!
E ela descerrou a cortina vermelha antes que pudesse me certificar que ela não queria conversar, tampouco dar ouvidos. Deu meia-volta sobre si com sua cortina vermelha e flamejante e saiu correndo tão subitamente e tão desajeitada que a cortina rodopiou em torno do seu corpo, formando a saia que tanto procurava. Se fosse uma pessoa que parasse para refletir, se não fosse surda aos acontecimentos, perceberia a saia que agora adornava seu corpo, a que dedicava tanto zelo. E se também eu não fosse surdo, perceberia a hipótese trágica que havia lançado ao léu, e que dava um sentido repentino a todos esses fatos estranhos e obscuros que atordoavam a minha mente inquieta e impávida. Mas como não sei correr e pensar ao mesmo tempo, só me restava a alternativa de reservar a reflexão para um momento futuro, mesmo sabendo que procedendo dessa maneira corria o risco de tropeçar num troço, de bater a cara contra um muro.

Mas mesmo assim segui meu caminho, deixando a Geórgia pra trás, e indo em direção a qualquer viela da cidade que, por um motivo qualquer, não tivesse guarda ou cancela, sempre imaginando que encontraria esse caminho atrás de uma praça erma e molhada que ficava num bairro de subúrbio.

Porém, tendo explicado tudo o que expliquei até agora, você acha que havia alguma condição de me perguntar onde ficava esse bairro de subúrbio? Havia alguma condição de tomar qualquer caminho estimado, contando já com o imprevisto de não haver ônibus, e de que todos os motoristas estavam também desesperados, e de que contra mim caminhava toda uma massa anônima?

Ou você vai na mesma direção ou você vai contra, e não há outra via. Todos os rios caminham até o oceano: mas há um oceano de pessoas querendo, agora, ocupar uma ilha. Faça os cálculos (se você for uma pessoa que tiver tempo para fazer cálculos) e tenha uma visão dessa geometria, uma noção do que seja o absurdo do quadrado redondo.

Posso estar redondamente enganado, mas não posso ficar sentado, observando esse espetáculo que é o mundo.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

SONHO MEU, volume II

Saiba que sonhei contigo - de novo. Ou melhor: sonhei com o Pi, seu gato. Ou melhor: com algo que eu sabia ser o Pi, muito embora tivesse um pescoço altíssimo e fosse de pelúcia, com expressão facial de desenho animado.

Seja como for, ele, o Pi, ia ser levado ao veterinário e precisava ser dopado. Você e o Carlinhos deram um remédio a ele e eu fiquei observando tudo. De repente, você se estirou sobre o chão e dum modo inexplicável esticou uma das pernas e começou a rir - sabe lá porquê. Achei intrigante. Mais intrigante ainda foi a reação do Pi ao remédio: ele desmaiou prontamente e com sua cabecinha de pelúcia lá das alturas do seu longo pescoço foi parar exatamente sobre o pé da sua perna esticada, que lhe serviu como uma almofada para amortecer o impacto da queda. Daí quem riu fui eu: percebi que você sabia que ele ia desmaiar e, pra amaciar o impacto, esticou estrategicamente as pernas na direção já sabida em que ele ia cair, protegendo-o do impacto.

Ri. Presumi que você já havia lhe aplicado tantas vezes o remédio antes que tal experiência acabou possibilitando até que você adivinhasse como o Pi ia cair e, por força da experiência e do hábito, pode até brincar com a situação, estirando as pernas de um modo que viesse a protegê-lo da queda.

Fiquei pensando (durante o sonho): esta é a força do hábito. De tanto repetirmos uma experiência, acabamos inventando uma inovação para driblar a monotonia que nos impõe sua repetição. De tanto o Pi desmaiar, agora você já podia até adivinhar e calcular em que direção ele ia cair e, como um bailarino que participava de uma coreografia a princípio indecifrável, esticava sua perna de um modo que tal ato viesse a ser completado pela queda de um gato - pescoçudo e de pelúcia.

Foi um balé que vi. Um número musical, onde tudo estava invisivelmente orquestrado e calculado, sem que a princípio eu soubesse.

Agora, acordado e te escrevendo, me pergunto: é assim, a vida??

SONHO MEU, volume I

Saiba que tive um sonho com você neste início de semana. Você virava pra mim e dizia, antes de virar o rosto: "estou indo". Eu me perguntava: "indo? indo pra onde?". E antes que você desse tempo de ter minha pergunta respondida, você partia sentado sobre um foguete, um míssil, que te levaria certamente para as alturas.

Eu também gostaria de ir para as alturas, e por isso invejei a notícia súbita da ida, a coragem com que você havia tomado a decisão: enfim, um amigo meu, pelo menos, ia - enquanto eu, não. Meu Deus, como emulava e invejava a sua ida!!!!

Por favor, quando tomar a decisão de partir de novo, deixe uma bula com todas as descrições.


Também quero ir, sabe lá pra aonde.