domingo, 30 de setembro de 2007

AMOR: ACIDENTE NECESSÁRIO

em A Dupla Chama, por Octavio Paz

O amor único é o resultado de uma escolha, mas esta, por sua vez, não é o resultado de um conjunto de circunstâncias e coincidências? E essas coincidências, são meras casualidades ou têm um sentido e obedecem a uma lógica secreta? Afinal, o encontro precede a escolha e no encontro o fortuito parece determinante. O encontro é constituído por uma série de fatos que surgem na realidade objetiva, sem que aparentemente venham guiados por algum desígnio e sem que nossa vontade participe em seu desenvolvimento. Por exemplo: eu ando sem rumo certo por uma rua qualquer e tropeço em uma pessoa; sua figura me impressiona; quero segui-la, desaparece numa esquina e um mês depois, na casa de um amigo ou na saída de um teatro ou ao entrar num café, a mulher reaparece; sorri, falo com ela, me responde e assim começa uma relação que nos marcará para sempre. Há mil variantes do encontro, mas em todas elas intervém um agente que às vezes chamamos sorte, outras casualidade e outras destino ou predestinação.

Casualidade ou destino, essa série de fatos objetivos regidos por uma causalidade externa, cruza-se com nossa subjetividade, nela se insere e transforma-se numa dimensão do mais íntimo e poderoso em cada um de nós. Breton lembrou Engels e denominou a interseção das duas séries, a exterior e a interior, de acaso objetivo. Ambas são alheias à nossa vontade, ambas nos determinam e sua conjunção cria uma ordem, um tecido de relações, sobre o qual ignoramos tanto a finalidade quanto a razão de ser. Essa conjunção de circunstâncias é acidental ou possui um sentido e uma direção? Seja o que for, somos joguetes de forças alheias, instrumentos de um destino que assume a forma paradoxal e contraditória de um acidente necessário.

O acaso objetivo cria um espaço literalmente imantado: os amantes, como sonâmbulos dotados de uma segunda visão, caminham, cruzam-se, separam-se e voltam a se juntar. Não se procuram: encontram-se. Breton recria com clarividência poética esses estados que todos os amantes conhecem no princípio de sua relação: o saber-se no centro de um tecido de coincidências, sinais e correspondências. O acaso objetivo apresenta-se, em suma, como outra explicação do enigma da atração amorosa, mas deixa intacto o outro mistério, o fundamental: a conjunção entre destino e liberdade. Acidente ou destino, sorte ou predestinação, para que a relação se realize é necessária a cumplicidade da nossa vontade. O amor, qualquer amor, implica um sacrifício; apesar disso, sabemos estar escolhendo, sem pestanejar, esse sacrifício. Este é o mistério da liberdade, como o viram admiravelmente os trágicos gregos, os teólogos cristãos e Shakespeare. Também Dante e Cavalcanti pensavam que o amor era um acidente que, graças a nossa liberdade, se transformava em escolha. Seja como for, Breton percebia como são precárias e ilusórias as idéias com que pretendemos explicar o enigma da relação amorosa. Esse enigma é parte de outro maior, o do homem que, suspenso entre o acidente e a necessidade, transforma sua situação em liberdade.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

TEORIA DO CLOWN, por Fellini

Tenho sob os olhos, entre outras muitas, uma definição do clown feita por meu conterrâneo Alfredo Panzini, no Diccionario Moderno: "CLOWN = palavra ingelsa que quer dizer rústico, rude, torpe, indicando depois quem com artificiosa tropeza faz o público rir. É o nosso palhaço".

Mas também aqui existe a mesma miserável diferença do termo estrangeiro que enobrece a coisa. O palhaço é mais de feira e praça, o clown, de circo e palco. Um bom acrobata é um clown, isto é, quase um artista, e julgará imprópria e ofensiva a expressão palhaço. Mas clown designa também o palhaço. O próprio Carducci, defensor do vernáculo, nas prosas polêmicas de Confessioni e Bataglie, capítulo Ça ira, não desdenha a palavra.

Nesses tempos de nacionalismo, que direi eu? Bem, o clown encarna os traços da criatura fantástica, que exprime o lado irracional do homem, a parte do instinto, o rebelde a contestar a ordem superior que há em cada um de nós.

É uma caricatura do homem como animal e criança, como enganado e como enganador. É um espelho em que o homem se reflete de maneira grotesta, deformada, e vê a sua imagem torpe. É a sombra.

O clown sempre existirá. Pois está fora de cogitação indagar se a sombra morreu, se a sombra morre.

Para que ela morra, o sol tem de estar a pique sobre a cabeça. A sombra desaparece e o homem, inteiramente iluminado, perde seus lados caricaturescos, grotescos, disformes. Diante duma criatura tão realizada, o clown, entendido no aspecto disforme, perderia a razão de existir. O clown, é evidente, não teria sumido, apenas assimilado.Noutras palavras, o irracional, o infantil, o instintivo já não seriam vistos com o olhar deformador que os torna informes.

(...)

Quando digo o clown, penso no augusto. Com efeito, as duas figuras são o clown branco e o augusto. O primeiro é a elegância, a graça, a harmonia, a inteligência, a lucidez, que se propõe de forma moralista, como as situações ideais, únicas, as divindades discutíveis. Eis que em seguida surge o aspecto negativo da questão. Pois dessa forma o clown branco se converte em Mãe, Pai, Professor, Artista, o Belo, em suma, no que se deve fazer.

Então o augusto, que devia sucumbir ao encanto dessas perfeições, se não fossem ostentadas com tanto rigor, se rebela. Vê as lantejoulas cintilantes, mas a vaidade com que são apresentadas as torna inalcançáveis. O augusto, que é a criança que faz sujeira em cima, se revolta ante tanta perfeição, se embebeda, rola no chão e na alma, numa rebeldia perpétua.

Essa é a luta entre o orgulhoso culto da razão, onde o estético é proposto de forma despótica, e o instinto, a liberdade do instinto.

O clown branco e o augusto são a professora e o menino, a mãe e o filho arteiro, e até se podia dizer que o anjo com a espada flamejante e o pecador. São, em suma, duas atitudes psicológicas do homem, o impulso para cima e o impulso para baixo, divididos, separados. (...) A reconciliação dos opostos, a unidade do ser.

A dose de dor que existe na guerra contínua entre o clown branco e o augusto não se deve às músicas nem a nada parecido, mas ao fato de presenciarmos a algo que se liga à nossa própria incapacidade de conciliar estas duas figuras. Com efeito, quando mais procures obrigar o augusto a tocar violino, mais dará soprinhos com o trombone. O clown brnaco ainda pretenderá que o augusto seja elegante. Mas quanto mais autoritária seja essa intenção, mais o outro se mostrará mal e desajeitado.

(...)

Neste ponto, também podia citar a famosa antítese popular chinesa entre ying e yang, o frio e o sol, a fêmea e o macho, todos os possíveis contrastes. Podia-se falar de Hegel e da dialética, acrescentar que os augustos são, mais justamente, uma imagem subproletária do pátio dos milagres, com desnutridos, disformes, marginais, capazes talvez de revoltas, não de revoluções. É provável que o povo sempre os tenha tratado com confiança por causa de sua condição miserável, sentindo-se familiar ao abismo.

(...)

O clown branco é um burguês, que de entrada procura surpreender com sua aparência de rico, poderoso, maravilhoso. O rosto é branco, espectral, franze as altivas sobrancelhas, a boca é assinalada por um só traço, duro, antipático, frio, desigual. Os clowns brancos sempre competiram para ficar com o traje mais luxuoso na luta dos figurinos. (...) O augusto, pelo contrário, faz um tipo único que não muda nem pode mudar de roupa. É o mendigo, o menino, o esfarrapado....

(...)

O clown branco assusta as crianças por representar o dever ou, empregando uma palavra na moda, a repressão. A criança se identifica de saída com o augusto, na medida em que esse se parece com um patinho feio ou um cachorro e é maltratado, e por isso quebra os pratos, se retorce no chão, se atira baldes d'água no rosto. é o que a criança gostaria de fazer e os clowns brancos, os adultos, a mãe, a tia, impedem que faça.

No circo, através do augusto, a criança pode imaginar que faz tudo o que está proibido, se vestir de mulher, armar surpresas, gritar, dizer em voz alta o que pensa.

Aqui ninguém te repreende. Pelo contrário, te aplaudem.

(...)

O mundo, não só minha cidade, está povoado de clowns.

Quando estive em Paris para este filme, imaginei uma sequência, que depois não rodei, em que, andando de táxi, de tanto falar nos clowns, podia-se vê-los na rua. Velhas ridículas com chapéus absurdos, mulheres com sacolas de plástico na cabeça para se proteger da chuva, chapéus e casacos que encolheram, homens de negócios com pastas típicas e um bispo, de aspecto embalsamado, sentado num auto junto ao nosso.

Se me imagino um clown, creio que sou um augusto. Mas também um clown branco ou, talvez, o diretor do circo. O médico de loucos que, por sua vez, enlouqueceu.

(...)

Pasolini é um clown branco do tipo engraçado e sabichão. Antonioni é um augusto desses silenciosos, murchos, tristes. Parise pode ser tudo, um augusto mendigo, sempre meio bêbado, e também um clown branco impertinente, acerado, misógino, dos que esbofeteiam o augusto sem mesmo lhe dar uma explicação.

Picasso? Um augusto triunfal, presunçoso, sem complexos, que sabe fazer tudo e no fim é quem vence o clown branco. Einstein, um augsto sonhador, encantado, que não fala, mas no último instante tira, cândido, do bolso a solução do enigma proposto pelo atilado clown branco. Visconti, um clown branco de grande autoridade, cujo faustoso traje impressiona. Hitler, um clown branco. Mussolini, um augusto. Pacelli, um clown branco. Roncalli, um augusto. Freud, um clown branco. Jung, um augusto.

O jogo é tão certo que, se te vês por acaso ante um clown branco, tendes a ser um augusto, é vice-versa.

O chefe de produção da minha fita era um clown branco. Assim, os outros nos convertíamos em augustos. Apenas a aparição de um clown branco mais ameaçador, o fascista, nos transformava também em clowns brancos, desde o momento em que lhe respondíamos, disciplinados, com a saudação romana.