quinta-feira, 7 de julho de 2011


Sou pirata: desde há muito o mar minou a âncora que a terra me atava. Sou pirata: cresci sem raízes e aos poucos fui desgrenhando os cabelos até que tudo aturdisse. Até que o horizonte se tornasse o cenário por onde trafego ao contrário e peregrino sem exílio, me arriscando contra qualquer direção. Por isso não tenho linhas nas mãos e me sento na orla da praia, aturdido.

Os coqueiros balançam em homenagem ao sol de inverno.

Não é o fim: é início.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

EFEMÉRIDES 1



O sol está lindo, o meu bálsamo viceja de tanta clorofila e com o advento do eclipse o céu adquiriu aquela espessura que lhe dá a realidade devida:profundidade e espanto. No entanto, tenho sido perseguido pela tia Angústia. Eu, que sempre fora sobrinho do Desespero, agora me vejo invadido por este sentimento novo, a angústia.

Será o amor? pensei. Afinal, sempre há durante o ato amoroso o reconhecimento de um certo egoísmo natural, de uma certa fronteira cuja travessia, se não é impossível, é movediça. Será a carreira? Afinal, os resultados são sempre tão medíocres que acabo me perguntando sobre o esforço despendido, sobre os resultados deste esforço que se esboroam como cimento e pó - que queimam.

Não sei, não sei. Só sei que resolvi decretar oficialmente um luto, aquele balanceamento de contas que, afinal, um dia todos deveremos fazer - mas que sempre adiamos. E, se não for este balanceamento de contas o que estou vivendo agora, que seja pelo menos uma espécie de introspecção, de mergulho necessário e dolorido que, afinal e ao cabo, te joga renovado sobre a vida, essa imensa praia. Que seja pelo menos isto, então.

Tenho descoberto algumas coisas nesta ilha tropical em que estou vivendo e em que sou o meu amigo mais íntimo.Primeiramente, o mais fundamental: de que não tenho talento nenhum para viver, para fruir do tempo - como diria um bom filósofo. Sempre fui tão ocupado com o ser e em tentar ser que me afixei neste verbo como uma serpente, me esquecendo absolutamente como é que se faz para estar. Sim, estar.

Você já esteve? Eu, por exemplo, nunca estive, ou melhor, raramente estive - e quando percebi que estava, deixei imediatamente de estar. Estar é terrível. Exige constantemente que você seja só sensação, quase burro. Que se seja epitelial, pensamento turvo. Mas eu me acostumei com meu crânio.

E é daí que descobri outra coisa fundamental, a segunda coisa: que pensar, ler e escrever é uma maneira de driblar a efemeridade do que vive sob a égide do tempo. Ler eterniza. Viver temporiza - e eu não sei viver. Desfrutar da passagem do tempo. Sou absolutamente incapaz disso, e procuro alguma  forma de eternidade nesta paragem do tempo que, em suma, é a literatura, a filosofia e a astrologia. Crê nisso, que a literatura, a filosofia e a astrologia constituem uma razão para o espírito, uma razão que dá um sentido maior à efemeridade das coisas? Não crê nisto? Não?

Eu creio.