Sei que foi como numa manhã nevoenta que percebi: alguma coisa faltava. Como se alguém não estivesse, como deveria ser de costume, à porta, esperando — mas tão somente como uma pessoa que não tem pelo quê esperar espera.Foi numa manhã nevoenta que percebi: não havia ninguém na minha varanda. E talvez não houvesse ninguém também no quarto, no sótão - vasculhei áreas estranhas atrás dessa pessoa, desesperado, como se ter perdido o que jamais havia confirmado que existira fosse a coisa mais imperdoável deste mundo.
Às vezes, em raros momentos, em raríssimos momentos, ela me aparece. Na varanda. Estou a seu lado. Neste momento, reparando nela a meu lado, descubro: que eu nunca poderia prendê-la. Nem dentro de casa, nem dentro de mim. E que me resta um consolo sobre-humano de ficar feliz só pelo simples fato de que eu a vira, e de que ela poderia estar comigo sempre que quisesse — mas somente quando ela quisesse. Que não depende de mim, que terei que aprender a suportar cada vez mais esse desamparo,que não adianta tomar café, que não adianta jogar baralho, que não adianta matar saúvas!
Se me perguntassem o porquê da minha tristeza, seria assim que justificaria: esta é a cara que tenho, desde que ela ou aquilo partiu como se nunca mais fosse voltar. E que, desde então, espero. Espero todo dia que aquilo me aconteça, mesmo quando estou lavando as vidraças, mesmo quando estou descansando e raios de luz atravessam as brechas das venezianas.
Espero ansiosamente: a manhã nevoenta.
Depois desespero: cai grande quantidade de chuva.
Só então chego à janela e contemplo o céu, da mesma forma como o vulto esperado chega tranqüilo à varanda.
Há luz.
E subitamente sei, percebo que sei, sei que ela vai voltar, que acredito nela como se acredita em duendes - se acredita em duendes, em fadas e bruxas.
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