sábado, 31 de maio de 2008

PENSÃO, por Bruna Lombardi


Não se preocupe. Desculpe-me este gesto de impaciência
e esse jeito de cansaço, esse corpo como de preguiça
esse sentimento como de uma culpa.

Não se importe, por favor, com esse desligamento
esse desinteresse, essa falta de ciência,
esse ar parado. Esse mormaço, esse aperto
no meio da multidão, essa falta de espaço.
Não se preocupe que se dá sempre um jeito.

Desculpe-me esse amor gasto nas mãos
e esses olhos de todo dia, esse esforço
e essa espécie de falta e esse pulmão manchado
e sobretudo esse adiamento.

Desculpe os móveis em desordem, a poeira
a iniciativa não cumprida. As promessas.
Desculpe a falta de encanto. Puxe uma almofada.
Aceite um chá, coma um biscoitinho.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

ENTREVISTA, por Adélia Prado


Um homem do mundo me perguntou:
o que você pensa de sexo?
Uma das maravilhas da criação, eu respondi.
Ele ficou atrapalhado, porque confunde as coisas
e esperava que eu dissesse maldição,
só porque antes lhe confiara: o destino do homem é a santidade.
A mulher que me perguntou cheia de ódio:
você raspa lá? perguntou sorrindo,
achando que assim melhor me assassinava.
Magníficos são o cálice e a vara que ele contém,
peludo ou não.
Santo, santo, santo é o amor, porque vem de Deus,
não porque uso luva ou navalha.
Que pode contra ele o excremento?
Mesmo a rosa, que pode a seu favor?
Se "cobre a multidão dos pecados e é benigno,
como a morte duro, como o inferno tenaz",
descansa em teu amor, que bem estás.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

PORQUE AS PESSOAS DECIDEM IR PRO CÉU

CANÇÃO, por Cecília Meireles

Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
o lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te digo...

quarta-feira, 30 de abril de 2008

A VIDA É AMBIGUA

Porque as folhas crestaram quando eu ainda pensava que a primavera era infinda?

Porque os espíritos dançaram uma dança no momento súbito da despedida?

E porque jamais suspeitei desse acorde, eu, que sempre entrei em cavernas e me abismei no escuro?

Porque meu amor sempre se recusou a dividir a linha da vida no meio. E porque meu desejo sempre esperou encontrar doces dentro do pote. Sobretudo, porque me recuso a aceitar a possibilidade de que não haja nêsperas a desenrolar sobre o tapete da minha língua.

Por enquanto, estou à mingua.

Mas vou recompondo em silêncio fatos e fotos de uma revista, na expectativa que tal sucessão me aponte para o que está além do pote e dos muros – e vejo uma imensidão exígua.

A vida é sinuosa: que horror.
E ambígua.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

FOME ESTRANGEIRA


Sim, sou mineiro, uma parte de mim é mineira, não posso negar. Tem profundas raízes deitadas num solo vermelho e barroso, coberto de pitangas translúcidas e taturanas malvadas, por onde até hoje escorre exuberante enxurrada.

Não posso negar, meu Deus, não posso negar: venho quase do centro do continente, em meio a montanhas e laranjas, bem longe do trânsito grandiloqüente das sirenes, das turbinas e de tudo que ocorre a preamar. Me acostumei assim facilmente às minhocas, ao cheiro narcotizante da torrefação de café e àquelas inúmeras nuvens com seus carregados desastres. Ai, meu Deus, essas nuvens: porque fui conhecer essas nuvens, por quê?

Venho pois desta região onde o relógio da Catedral ainda marca o compasso e onde a charrete tem lugar. Não posso negar, meu Deus, não posso negar: venho desse lugar estranho, onde o fazer nada é tamanho, e onde o viver é gozar.

Talvez seja aí que tenha me bem-aventurado e visto pintassilgos em seu vôo rasante e infinito, prolongando e perdurando uma fome que me passou a ser estrangeira.

Talvez seja isto: minha fome é estrangeira. Minha sede é estrangeira. E não sei voar.

Não sei o que fazer com isso que se acotovela em meu âmago, com este bebê estranho que foi se desembrulhando ao longo dos anos e me expondo à picada de duras vespas.

Por enquanto, vou ouvindo uns Miltons e alimentando o ânimo.

E isto porque a maçã resiste áurea e heróica sobre a fruteira.

E DAÍ?, por Milton Nascimento e Ruy Guerra

porque fui ouvir isso, meu Deus, por quê?

Tenho nos olhos quimeras
Com brilho de trinta velas
Do sexo pulam sementes
Explodindo locomotivas
Tenho os intestinos roucos
Num rosário de lombrigas
Os meus músculos são poucos
Pra essa rede de intrigas
Meus gritos afro-latinos
Implodem, rasgam, esganam
E nos meus dedos dormidos
A lua das unhas ganem

E daí?

Meu sangue de mangue sujo
Sobe a custo, a contragosto
E tudo aquilo que fujo
Tirou prêmio, aval e posto
Entre hinos e chicanas
Entre dentes, entre dedos
No meio destas bananas
Os meus ódios e os meus medos

E daí?

Iguarias na baixela
Vinhos finos nesse odre
E nessa dor que me pela
Só meu ódio não é podre
Tenho séculos de espera
Nas contas da minha costela
Tenho nos olhos quimeras
Com brilho de trinta velas

E daí?

sábado, 29 de março de 2008

ANIVERSÁRIO 2008: alguns convidados


o que foi servido:
pasta & pesto

o que foi presenteado (by Luís Capucho):
As Diversas Faces do Ser Humano

face 1: SÓTER PATOLINO
ou Nunca Dê Bronca no Menino

face 2: LUCIANA LÁZULLI
ou a Diva Dúvida

face 3: JÚLIO PINON

face 4 e 5: JOÃO COELHO e BÊ

face 6: casal XX ou XIRO & XANDA


fase final: EDIL CARVALHO e LUÍS CAPUCHO

o aniversariante e o compositor (e o pintor do quadro)


esta, sim, em fase final: DÉIA CARVALHO

ANIVERSÁRIO 2008: ao longo da festa


No corredor da morte - ou fumódromo:
LUCIANA LÁZULLI, JÚLIO PINON e PEDRO PAZ


no corredor do sol: XANDA, EDIL e CIRO





Mahatmathilda mata sede nas terras de Saara Saara:
SERVIO TULIO e MATHILDA KÓVAK





amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do pesto

- ôps, quer dizer, peito!!






mais amigo, peito e pesto



já a irmã merece beijo!

ANIVERSÁRIO 2008: o jantar está na mesa

o pesto de manjericão
estava bão?





de boca aberta: (sem comentários).








de boca ocupada: (sem comentários).







Eis o que o Celeiro Musical de Nicty City contém:

trigo e cevada.



Irreverência? Pedido de pesto?

Ou a hóstia profana realmente não tem preço?

quarta-feira, 19 de março de 2008

ESTAÇÃO FEBRIL


Não devia ter me deitado com teu corpo.

Acabei me lembrando que quero morrer disso.

E não devia ter me lembrado, não podia
eu, que já seguia seguro esse caminho
em que se adoece aos poucos.
em que se entrava os pés com espinhos.
Já me acostumara a estar sozinho;
não devia ter me lembrado de que preciso do outro.
Não podia ter me dado esse tormento
Não podia ter me dado esse prazer imenso
de redescobrir como se faz um ninho.

de inaugurar esse momento colocando um ovo.

Me aconchego por debaixo do cobertor
procuro sentir seu cheiro, sua umidade, sua musculatura
e me descubro gravitando numa estação fecunda
onde sou eu um dos gêmeos alegres e univitelinos
onde você é meu irmão de corpo & alma
e onde o amor é esta estação
de onde se nasce de novo
e se naufraga.

ESTAÇÃO FECUNDA por Luís Capucho

Não pude evitar que eu também quisesse colocar meu ovo.
Fiz com as luzes apagadas. Esperei que chegasse a madrugada
e quando os galos começaram a cantar muito longe, botei.
Não havia para mim nenhum significado em colocá-lo:
entre minhas cobertas e pernas era só o que me faltava.
Repeti o prazer até o terceiro ovo.
Não pude evitar que me viessem imagens de outros homens
colocando seus ovos
e me pareceu que somente isto lhes faltava,
que nada mais os aproximaria de mim
senão esse momento de colocarem os ovos.
E que também nada mais nos bastaria, a cada um,
senão os nossos próprios ovos.
Os galos cantavam muito longe.
As luzes estavam apagadas.
Naquela noite eu podia dormir tranquilo:
tinha fundo.



sexta-feira, 30 de novembro de 2007

O QUADRADO REDONDO


Por algum motivo ignorado, as pessoas se desesperavam. Se não era guerra, epidemia, o que explicaria o fato de quase duzentos homens montarem um bloqueio com seus imensos coturnos enfurnados na lama? Sei que não haver saída é uma situação desesperadora e até alarmante – mas o que explicaria tamanho rebuliço, tamanho alvoroço, tal como um guisado quente procurando espaço para expandir o seu caldo grosso?

E o rebuliço era tamanho que ocupava todo o espaço que antes estava reservado para o tempo. Já não havia mais tempo, e quando não há mais tempo a palavra de ordem é: fuja. Fuja antes que a ameaça ignorada te imobilize pelos braços. Antes que ela te detenha de bruços. De modo que, não havendo tempo sequer para me certificar do que estava acontecendo, me juntei a massa anônima que corria desenfreada, uns ainda com roupas de dormir, outros com a cara estupefata. Sabendo que deveria correr e fugir, e ignorando o motivo que agora também me afligia, procurava ruelas desguarnecidas por onde pudesse escapar sem ser detido.

Sei que o que conto não faz sentido, como também não fazia sentido transpor as fronteiras e ir em direção a liberdade que é dada pela imensidão obscura da noite, que sufoca pelo o que ela tem de infinito e que agasalha pelo mesmo e paradoxal motivo. Sei que não fazia (e não faz) sentido algum ir nesta direção – mas deve haver um momento em que já não há mais outra alternativa, outro caminho possível. Deve haver esse momento, onde tomamos o caminho evitado e inevitável. Onde damos o salto. Tal como o girino descobre, pela intumescência que vai se transformando em pata, que é chegada a hora de transpor a superfície cristalina da água e adentrar nesse mundo de oxigênio e carbono.

Nunca soube que o mundo fosse tão estranho. Nunca vi as pessoas tão desesperadas, bem como nunca entendi aquele brilho que se carregava nos olhos, um brilho fosco. Entre o vai-e-vem desenfreado de cotovelos e braços sempre surge um rosto: um rosto conhecido. Um rosto amigo.

Digo o nome desse amigo: Geórgia. É ela quem também se ocupa o tempo todo. É ela quem encontro no meio do tumulto e sequer tem tempo para conversar sobre o ocorrido. Ela diz estar com pressa, que tem de reaver um vestido, e dá meia-volta, decidida a fazer o caminho contrário ao da massa anônima quando a detenho e lhe pergunto:
- O que está acontecendo?
Ao que ela responde:
- Estou correndo. Desculpa, a gente conversa depois. Tenho que pegar um vestido.
- Vestido?? Mas não há tempo para pegar vestidos. E mais: você não deve fazer o caminho de volta.
- Desculpa, estou com pressa. A gente conversa depois. Tenho que voltar pra casa.
- Mas você não pode voltar pra casa!
- Desculpa, por favor, me larga! Estou com pressa!!

E, num movimento súbito, empurrou o ar como se puxasse a barra de um cortina grande e vermelha, querendo acabar com o espetáculo e deixar os espectadores sem resposta e sobreaviso. Num súbito, tinha que detê-la – e para detê-la tinha que dizer algo que fosse tão grave quanto horrível. E disse:

- Mas.. o mundo está acabando!
E ela descerrou a cortina vermelha antes que pudesse me certificar que ela não queria conversar, tampouco dar ouvidos. Deu meia-volta sobre si com sua cortina vermelha e flamejante e saiu correndo tão subitamente e tão desajeitada que a cortina rodopiou em torno do seu corpo, formando a saia que tanto procurava. Se fosse uma pessoa que parasse para refletir, se não fosse surda aos acontecimentos, perceberia a saia que agora adornava seu corpo, a que dedicava tanto zelo. E se também eu não fosse surdo, perceberia a hipótese trágica que havia lançado ao léu, e que dava um sentido repentino a todos esses fatos estranhos e obscuros que atordoavam a minha mente inquieta e impávida. Mas como não sei correr e pensar ao mesmo tempo, só me restava a alternativa de reservar a reflexão para um momento futuro, mesmo sabendo que procedendo dessa maneira corria o risco de tropeçar num troço, de bater a cara contra um muro.

Mas mesmo assim segui meu caminho, deixando a Geórgia pra trás, e indo em direção a qualquer viela da cidade que, por um motivo qualquer, não tivesse guarda ou cancela, sempre imaginando que encontraria esse caminho atrás de uma praça erma e molhada que ficava num bairro de subúrbio.

Porém, tendo explicado tudo o que expliquei até agora, você acha que havia alguma condição de me perguntar onde ficava esse bairro de subúrbio? Havia alguma condição de tomar qualquer caminho estimado, contando já com o imprevisto de não haver ônibus, e de que todos os motoristas estavam também desesperados, e de que contra mim caminhava toda uma massa anônima?

Ou você vai na mesma direção ou você vai contra, e não há outra via. Todos os rios caminham até o oceano: mas há um oceano de pessoas querendo, agora, ocupar uma ilha. Faça os cálculos (se você for uma pessoa que tiver tempo para fazer cálculos) e tenha uma visão dessa geometria, uma noção do que seja o absurdo do quadrado redondo.

Posso estar redondamente enganado, mas não posso ficar sentado, observando esse espetáculo que é o mundo.